quinta-feira, 11 de junho de 2026

RPG- O ENCONTRO DE RPG NÃO MORREU. ELE SÓ FICOU ADULTO.

One page rules

uma análise sobre tempo, compromisso e o fim dos encontros semanais

1. O Encontro Semanal e o Peso da Idade.

Minha experiência com encontros semanais e regulares para jogar RPG, tanto em residências quanto em espaços abertos, gerou uma reflexão: o formato de encontro semanal fixo ainda é viável atualmente, sobretudo para pessoas na minha faixa etária?

  A questão surge de uma constatação: à medida que envelhecemos, acumulamos compromissos inadiáveis. Comprometemo-nos com atividades que não visam o lazer, mas o cumprimento de funções sociais. Nesse contexto, os encontros semanais tornam-se menos frequentes e menos frequentados.

  Originalmente, esse formato era adequado para jovens em período escolar. Ao saírem da escola no final de semana, dispunham de energia e disponibilidade para se reunir e se divertir. Hoje, não sendo mais tão jovem, esse formato deixou de ser um compromisso prazeroso para se tornar apenas mais uma obrigação na agenda. O encontro semanal não é mais percebido como diversão, mas como mais um compromisso. E essa não era sua proposta original.

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2. O Esforço de Sair de Casa e os Dois Modelos de Encontro.

  Um ponto que muitos não consideram é que, após certa idade, todas as atividades fora de casa demandam esforço. Organizei encontros de RPG por quase vinte anos, intercalados com encontros de anime e convenções.

  Os encontros de RPG em âmbito fechado, ou seja, em residências, sempre dependeram da organização do dono do local ou de um membro mais engajado. Essa pessoa cedia seu tempo para coordenar horários, confirmar presenças e garantir que a sessão ocorresse. Esses encontros particulares foram a maioria dos que participei, até que os amigos com disponibilidade para se reunir todos os finais de semana ingressaram no mercado de trabalho.

  Atualmente, os encontros abertos, realizados em shoppings, livrarias e outros espaços públicos, não oferecem o mesmo conforto do encontro fechado. Diferença entre os modelos:

Encontro Fechado: Ocorre em espaço privado, como uma residência. Caracteriza-se por ter um grupo de jogadores fixo, definido por convite. A organização é centralizada em uma ou mais pessoas responsáveis. A principal vantagem é a coesão do grupo, que permite continuidade de campanhas longas. A principal desvantagem é sua dependência: se o organizador não puder mais ceder seu tempo, o grupo se desfaz.

Encontro Aberto: Ocorre em espaço público. Caracteriza-se por ser acessível a qualquer pessoa interessada em jogar. Não há jogadores fixos nem a necessidade de convite prévio. A principal vantagem é a oportunidade de conhecer novas pessoas e divulgar o hobby. A principal desvantagem é a alta rotatividade de participantes, o que dificulta a manutenção de um grupo coeso e a continuidade de campanhas.

   Ambos os modelos são válidos para a divulgação do RPG e proporcionam lazer. Contudo, com o tempo, passei a questionar se o tempo dedicado a esses encontros ainda possuía a mesma importância que no passado. A visão que apresento não é universal, mas pessoal. A forma como eu enxergava os encontros abertos aos vinte anos não é a mesma que hoje, após os trinta. O que antes era integralmente diversão, hoje se aproxima de uma obrigação. Observo que os participantes mais jovens frequentam os encontros sem compromisso e os mais velhos se comprometem a ponto de, por vezes, não se divertirem.

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3. O Equilíbrio Perdido e o Efeito da Vida Adulta.

  Nos últimos dois anos, optei por não comparar grupos ou experiências, e sim analisar o ponto em comum entre o encontro aberto e o fechado. A conclusão é simples: ambos visam à diversão do grupo. 

  Quando a atividade se torna apenas compromisso e a diversão se torna escassa, o encontro falhou. Quando não há compromisso algum e apenas a diversão sem controle, o encontro não se repete. É necessário equilíbrio entre diversão e responsabilidade pela periodicidade e consistência.

  Um exemplo prático ocorreu em Fortaleza. Historicamente, a cidade teve muitos grupos de RPG com encontros semanais. Após a pandemia, esses encontros semanais desapareceram por completo. Não foi por falta de locais, pois os grupos sempre mudaram de espaço conforme a necessidade. O que mudou foi o perfil dos organizadores?

   Antes da pandemia, a maioria era universitária. No pós-pandemia, grande parte se formou e ingressou formalmente no mercado de trabalho, assumindo as responsabilidades da vida adulta descritas anteriormente .Isso demonstrou que os encontros semanais passaram a ser mensais, com uma data fixa no mês, e não na semana. O formato semanal não estava desgastado. Os organizadores estavam. Não eram mais jovens, mas adultos cujas responsabilidades impedem dedicar um dia da semana ao lazer. É necessário mais planejamento para retirar um dia do mês, e não da semana, para descansar e jogar. O formato ainda existe para universitários, adolescentes e pessoas com tempo disponível. Contudo, para o adulto, o tempo para diversão é escasso.

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4. Wargame, D&D e a Mudança de Público. 

  Uma mudança nos meus hábitos de lazer foi começar a jogar Wargames. Esses jogos não tinham espaço nos encontros de RPG, pois o público-alvo sempre preferiu RPG. O Wargame é voltado para pessoas que buscam um jogo que exige preparação prévia: montar equipes, pintar miniaturas e criar terrenos. Não é uma atividade para um encontro semanal onde se apenas senta e joga. Exige tempo e planejamento.

   Com o tempo, observou-se que nos encontros de RPG o interesse se concentrava majoritariamente em um sistema: Dungeons & Dragons. 

   Outros sistemas, tão divertidos quanto, porém menos divulgados, não atraíam o público. Mesas anunciadas como D&D fechavam o número mínimo de jogadores rapidamente, às vezes excedendo-o. Percebi que os encontros abertos não atendiam mais à minha necessidade, pois o público presente não era aquele disposto a participar de uma partida de quatro horas. Era um público que buscava uma experiência de duas horas de Dungeons & Dragons. Esse não é o meu público.

   Após essa constatação, ingressei em um clube de Wargame. Nossos encontros, ainda que em shoppings, funcionam como "encontros fechados em espaço aberto". A participação exige convite. Apenas pessoas com seu próprio equipamento, dispostas a investir tempo e se preparar, podem jogar. Curiosos não estão autorizados a sentar à mesa. Divulgamos o hobby, mas deixamos claro que, para participar, é necessário investimento e preparação.

   Esse modelo demonstrou que os encontros de RPG mensais são diferentes. Não exigem a mesma preparação e planejamento. Notei que jogos sem profundidade não me atraem mais. É possível afirmar que outras pessoas, da minha idade ou mais novas, percebem que encontros com mesas gratuitas e jogos sem profundidade estão menos atrativos para quem realmente quer jogar RPG e mais atrativos para quem está interessado apenas na popularidade momentânea do sistema.

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5. Considerações Finais.

    Há algum tempo, afirmava-se que o RPG no Brasil havia morrido. Essa afirmação não procede. A prova foi a mobilização de jogadores de Fortaleza, que postaram fotos de encontros e convenções lotadas, demonstrando que o RPG não morreu. Ele apenas não estava sendo jogado na região de quem reclamava, seja por falta de iniciativa, seja porque, como explicado, as pessoas envelheceram. Quando o público de um jogo envelhece, é necessário formar novos jogadores. Comunidades que apenas apresentam o jogo de forma trivial a pessoas mais novas não criam um novo jogador, mas servem apenas como entretenimento momentâneo para alguém sem compromisso. Em resumo, o formato de encontro semanal não está desgastado. As pessoas envelheceram e o formato não se adequa mais à faixa etária dos organizadores. O formato ainda é válido, desde que pessoas mais novas assumam o compromisso. Atualmente, isso é difícil, pois o RPG é visto frequentemente como conteúdo, como diversão passageira, e não como compromisso. Essa diferença de percepção define a adaptação dos formatos. Quem o vê como diversão passageira não se compromete com sessões seguidas. Quem tem compromisso não dispõe de sábados durante um mês inteiro para um grupo que só se reunirá completamente uma vez. Por isso, é mais fácil organizar um encontro mensal para a idade dos organizadores atuais do que um semanal. Formatos bimestrais ou anuais podem ser até mais proveitosos no contexto atual. 

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   É fundamental ressaltar que as conclusões apresentadas nesta matéria derivam de observação e comparação de experiências pessoais. Não se baseiam em pesquisa externa ou dados estatísticos. Outros estados podem ter um público de RPG mais jovem. Contudo, no meu círculo de contatos, a faixa etária dos jogadores é alta. 

   Praticamente não há mais jogadores adolescentes nesses encontros. Quase todos são maiores de dezoito anos, e os poucos adolescentes presentes acompanham os pais, que são jogadores há muitos anos.